Trem
Doido
Quem
não tem, em seu histórico de vida, alguma
lembrança de um trem? Pode ser o trenzinho de brinquedo
armado no meio da sala atrapalhando a visita, pode ser a poesia
que repetida imitava o som da locomotiva: café com pão,
manteiga não. Pode ser a fila disfarçada de trem
que nos mandavam fazer, e até apitar, na época
do Jardim de Infância ou uma viagem de verdade, daquelas
que a gente nunca esquece. Trem é legal, não conheço
ninguém que não ache.
Tem trem com nome pomposo e até sobrenome: Expresso
do Oriente. Tem trem que virou letra de música: Trem das
Onze. Tem até trem que ganhou título de gente:
Baroneza, a primeira locomotiva brasileira. O nome foi dado em
homenagem à esposa de Irineu Evangelista de Souza, o Barão
de Mauá, Baroneza Maria Joaquina Machado de Souza. Homenagem
mais do que justa já que foi Mauá, figura empreendedora
e progressista, quem teve a coragem de trazer para o Brasil a
grande novidade daquele momento.
A primeira locomotiva a vapor foi construida
na Inglaterra em 1804, durante a revolução industrial, por Richard
Trevithick. Mas foi George Stephenson, também inglês,
quem difundiu comercialmente o invento. Os primeiros a trazerem
a locomotiva para o continente americano foram os Estados Unidos
(1824), seguidos pelo Peru (1851) e depois pelo Chile (1852).
Só em 1854 o poderoso invento chega ao Brasil. Na verdade,
desde 1835, o governo brasileiro vinha oferecendo vários
incentivos a quem quisesse implantar e explorar uma ferrovia
em território nacional. Mas, até Mauá, ninguém
havia se animado a realizar tão grande ousadia.
Irineu Evangelista de Souza se destacava
no mundo dos negócios
desenvolvendo atividades em diversos setores de produção:
fundição de ferro e bronze, caldeiraria, serralheria.
Fundou a Companhia de Gás para a iluminação
das ruas do Rio de Janeiro e uma empresa de bondes puxados a
burro. Mauá também introduziu o telégrafo
submarino, que permitia a comunicação do Brasil
com a Europa, e fundou uma companhia de navegação
a vapor e a primeira ferrovia brasileira, entre o Rio de Janeiro
e Petrópolis.
A implantação da Imperial Companhia de Navegação
a Vapor e Estrada de Ferro Petrópolis, na segunda metade
do século XIX, fez parte de um processo de desenvolvimento
econômico-social da então província do Rio
de Janeiro, ponto de partida da expansão cafeeira. Foi
na Floresta da Tijuca que cresceram os primeiros cafezais que,
aos poucos, se expandiram pela província transformando
o café no principal produto de exportação
brasileiro e o fator de recuperação da economia
do país, que estava em crise desde a independência.
Apontando uma esperança, os cafezais foram invadindo o
interior sendo que o vale do rio Paraíba do Sul foi quem
apresentou condições ideais para esse cultivo:
solo adequado e temperatura amena com chuvas regulares. O município
de Vassouras era considerado a “capital do café” e
o porto do Rio de Janeiro, o mais importante do império.
Com o aumento da produção cafeeira e a expansão da lavoura
para o interior, tornou-se necessário um sistema de transporte mais
moderno. Mauá já explorava uma linha de barcos a vapor que partiam
do Porto da Estrela, ou Porto de Mauá, trazendo e levando passageiros
e mercadorias para a corte. Esse Porto ficava na Praia da Estrela, no fundo
da baía de Guanabara, e era rota obrigatória dos viajantes e
comerciantes que procuravam Petrópolis e o interior da província.
A partir do Porto, o caminho seguia pela acidentada Estrada da Serra da Estrela.
Mauá então construiu o primeiro trecho da ferrovia que ligava
o Porto da Estrela a localidade de Fragoso, próxima a Raiz da Serra
de Petrópolis, criando com isso um dos primeiros casos de transporte
intermodal: marítimo e ferroviário.
A viagem inaugural, com um trem composto
por três carros
de passageiros e um de bagagem rebocados pela Baroneza, foi em
30 de abril de 1854 e causou grande reboliço. O Imperador
D. Pedro II compareceu e, após o discurso do Barão
de Mauá, declarou: “A Diretoria da estrada de ferro
de Mauá pode estar certa de que não é menor
o meu jubilo ao tomar parte no começo de uma empresa que
tanto ha de animar o comércio, as artes e as indústrias
do Império”.
Dois anos depois foi concluido o trecho
que ia de Fragoso até a Raiz
da Serra e só em 1883 o trem chegou até Petrópolis, inaugurando
o primeiro sistema de cremalheiras a ser implantado numa serra do país.
A Estação que ficava no centro de cidade, onde hoje funciona
a velha rodoviária, se chamava Leopoldina e a estrada de ferro mudou
o nome para Estrada de Ferro Príncipe Grão Pará. Já em
1885 estava praticamente concluido o caminho de trilhos que chegava até São
José Do Rio Preto. A estrada de ferro passou então a se chamar
Leopoldina Railway para depois, após a Proclamação da
República, 1889, sofrer mais uma mudança e ficar conhecida
como Estrada de Ferro Central do Brasil.
É possível imaginar as dificuldades para a construção
dessa primeira linha férrea e as transformações
causadas pela chegada desse novo meio de transporte. Lendo alguns
documentos antigos assinalo frases que revelam, com suas esclamações,
o efeito que a locomotiva causou: Elas são veículos
destinados a produziruma verdadeira revolução!
A chegada da locomotiva ao Brasil representa um progresso incalculável
para a civilização brasileira! Ela é um
invento poderoso da ciência humana e marca uma nova era
para o nosso país, uma era de prosperidade e grandeza!
Não há dúvidas que o transporte ferroviário
possibilitou um ritmo maior no desenvolvimento do nosso município.
Ele foi a marca do progresso, tornando compensador o transporte
de mecadorias por estas paragens
e trazendo, a reboque, um significativo aumento populacional. Observando o
texto do box O Caminho dos Trilhos, fica fácil detectar os núcleos
populacionais que se instalaram ao longo da estrada de ferro.
Enfim, chego ao final do texto com o sentimento
de que, pela importância que o transporte ferroviário teve na
região, Petrópolis merecia ter um museu que resguardasse
essa história. Afinal, como nos mostra essa matéria,
uma coisa puxa a outra, como a Baroneza puxava os seus wagons.E
a preservação da história puxa a lembrança
e lembrança é coisa boa e importante de se ter.
> O caminho dos trilhos
> A Baroneza
> O texte experimental
Denise Tati
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