| Fórmula da construção: fé + trabalho
=
edificação
e resultados |
Por Patrícia Puretz
Difícil escrever sobre uma história já contada
por tantos estudiosos com tamanha competência. Perdida em
meio a mil fontes bibliográficas, muita informação
e pouco espaço, opto pelo caminho do relato pessoal. Me
impressiono com a fé de um homem que soube transformá-la
em patrimônio religioso, cultural e estrutural de nossa região.
Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra (1906-1999), 1º Bispo de
Petrópolis e fundador do Seminário Diocesano N. S.
do Amor Divino soube edificar a fé: em Deus e no trabalho.
Fé que, sempre ouvi falar, é capaz de mover montanhas
e, neste caso especificamente, foi capaz de mobilizar pessoas,
não se deixando abater sequer pela economia de um Brasil
que, já nos anos 40 dava os primeiros sinais de instabilidade,
transformando em realidade um sonho à pedido da Santa Sé:
a construção do Seminário Diocesano Nossa
Senhora do Amor Divino, em Corrêas.
Devoto da santa homenageada, Dom Manoel voltou
ao Brasil vindo de Roma incumbido, dentre outras missões, de uma especialmente
difícil: a de fundar o Seminário.
Recursos escassos, para não dizer inexistentes: sem local,
material de construção, mão-de-obra... em
síntese: Dom Manoel deu-se conta de que havia se comprometido
com algo que partia literalmente do zero. Sua luz no fim do túnel
era a fé que, ao contrário de faltar-lhe, lhe era
farta e contagiante. Em oração, ajoelhado aos pés
da imagem de sua Nossa Senhora do Amor Divino, pediu-lhe a graça
de uma pronta solução que, milagrosamente, não
tardaria a cair-lhe nas mãos.
Tão confiante em seu pedido estava, que organizou na Diocese
a OVS (Obra das Vocações Sacerdotais), convocando
a todos os fiéis que rezassem e trabalhassem em prol de
conseguir o necessário à construção
do Seminário, indo além: escreveu carta aberta comunicando
que abriria em março de 1949 as portas da prometida obra.
Vitorioso, em pouquíssimo tempo, a Embaixatriz Lavínia
Luiz Guimarães doaria chácara em Corrêas, onde
o prédio seria construído. Não perdeu tempo:
arregaçou mangas e edificou a fé.
Me pego concentrada na questão da força da fé.
Sopra em meu ouvidos que me faltam algumas peças para que
eu escreva a matéria com a dignidade que a instituição
merece. As inúmeras obras disponíveis na livraria
do Seminário contam a trajetória factual da construção.
Falta depoimento de quem não participou de sua trajetória.
Me coloco à serviço do “cargo”. Histórias
lidas e contadas não me bastam. Preciso ir além:
explicações, esclarecimentos sobre força e
fé. Decido usar a matéria como instrumento e minha
vivência como veículo.
Em minha primeira visita ao Seminário, havia feito algumas
entrevistas, observado a construção, comprado um
livro sobre sua história. Nesta segunda, interfono explicando
que vim “fechar” a matéria. O imenso portão
de ferro se abre e subo a ladeira que leva à sede, construída
em estilo colonial, fachada cor-de-rosa.
Encontro um rapaz e pergunto por onde entrar. “Basta tocar
a campainha”. No saguão principal, circundado por
vários tripés com viçosas samambaias, me deparo
com uma imensa imagem de Cristo. Explico que quero “sentir” o
lugar. Com sorriso sereno de quem está em paz, o moço
diz que eu fique à vontade. Escolho começar meu tour
pela Capela. Atravesso o pátio interno à céu
aberto, onde ouço o repousante som da água que jorra
da pequena fonte, em meio a um igualmente pequeno jardim.
Entro na Capela. A penumbra do ambiente guarda
uma incrível
luminosidade natural, calma e acolhedora. As paredes pintadas de
azul me envolvem e o silêncio me abraça. Pela nave,
caminho para o altar, em direção à imagem
de N. S. do Amor Divino. Apesar de relativamente pequena, emana
grande força. Penso: “É uma é guerreira”.
Encaro a imagem que transmite seriedade mesclada à extrema
doçura.
Olho à minha volta. Algo circular, a Capela dispõe
no sentido anti-horário, quatorze imagens da via crucis
em relevo de madeira policromada. Bíblias, terços,
anotações manuscritas em latim compõem o cenário,
dando-lhe vida.
Coloridíssimos, dois imensos vitrais laterais chamam a
atenção. À esquerda, Jesus em meio a um trigal,
aponta a direção a um jovem, observado por uma atenta
senhora. Do lado oposto, Jesus conversa com oito jovens interessados,
observados por dois padres e outros dois rapazes que me parecem
camponeses. Na parte inferior, os dizeres: “Venite... Ego
Elegi vos”. Me dou conta de que a imagem simboliza perfeitamente
a proposta do Seminário: encaminhar jovens através
da religiosidade e do conhecimento, oferecendo oportunidade a quem,
em muitos casos, se não estivesse ali, não teria.
O trabalho iniciado por D. Manoel até a sua morte, se mantém
hoje pelas mãos do Padre José Maria Pereira, diretor
espiritual do Seminário e figura fundamental neste trabalho.
Sua simpatia e humor colocam por terra a imagem de sisudez que
muitos de nós têm de um padre. Para manter-se, a instituição
conta com doações de paróquias, de seguidores
anônimos e do Serra Clube, que organiza eventos para arrecadação
de verba. “Quem ajuda a formar um padre está ajudando
a salvar muitas almas”, reforça Pe. José Maria.
Na parte da manhã, cerca de 35 alunos externos em fase de
ensino médio estudam ali, pagando mensalidade que pode-se
chamar de simbólica, após passarem por um processo
de seleção.
De volta ao pátio central, observo várias portas.
Dentre muitas, um grande e limpíssimo refeitório
de onde se vê a ampla cozinha; na parede oposta, onze janelas
revelam quadros de uma maravilhosa natureza, nada morta; uma livraria,
rica em publicações religiosas e históricas
e uma sala de aula. Nesta última, um retrato pintado à óleo
de D. Manoel. Ando de um lado a outro e seu olhar, extremamente
profundo, acompanha meus passos.Retorno ao saguão principal e me despeço
dizendo que volto em breve.
Já em frente ao computador, a primeira coisa que faço é acessar
o site www.seminario.com.br, onde descubro mais sobre a trajetória
de D. Manoel e sua obra maior. Imperdível visita.
Ao terminar, me vem à cabeça que Deus, provavelmente,
dentre tudo o que criou não esqueceu-se do ateu. Talvez
com o sábio objetivo de reforçar a premência
da fé.
> Imagens
do Seminário
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