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Nos
caminhos de nossas andanças passou-nos pelos olhos
da memória — diga-se de passagem, os que melhor
enxergam — a trajetória de um homem. Esta homenagem é dedicada
a um personagem real, ativo participante da história
de nossa região. Patrimônio em forma de gente,
nosso protagonista chama-se Argemiro Hungria da Silva Machado
(1897-1954). Nosso gancho, seu caso de amor com a história
de um país chamado Brasil e sua incondicional paixão
por Itaipava e por sua propriedade por estas bandas. Um dia
chamada Fazenda Nossa Senhora da Soledade, passou a Soledade
de Santo Antônio para finalmente ser batizada Santo
Antônio, em função do rio que cortava
aquelas terras. A fazenda guarda em seu ar e construções
curiosas histórias conhecidas por pouquíssimos
privilegiados. Pelo menos até este momento.
E Argemiro?
Belo, inteligente, espirituoso, alegre, charmoso, influente,
cheio de amigos, recheado de vida. Acima de qualquer
suspeita como professor de boa didática — pois
nem todos a possuem — imprimiu com destreza a essência
de sua forte personalidade e competência em seus descendentes.
De lembrança, deixou-nos perfeitamente conjugado o
verbo construir, seja ele no tempo presente, passado e, pelo
andar da carruagem, futuro.
Para tanto, contamos com a incondicional
colaboração
de seus descendentes, a começar por Paulo Hungria
da Silva Machado, filho de Argemiro, e de seus netos, Paula,
Ana, Sylvia Amélia e Theodoro. De colaboradores, tornaram-se
amigos: queridos e raros, daqueles que dificilmente se encontra
e não se deixa escapar jamais. Só isto, já seria
motivo suficiente para contar uma bela história, mas
nosso protagonista foi além: nos deixou exemplo de
vida, em uma mistura visão, justiça e generosidade.
Nascido
na cidade de São Paulo, Argemiro, filho de
Malvina e irmão de Antônio perdeu cedo o pai.
Sua jovem mãe, viúva, porém cheia de
decisão nas veias, segue para a Europa com os filhos,
para morar em Mons, na Bélgica, onde ambos estudaram
até a deflagração da Primeira Grande
Guerra. Voltam então à sua cidade natal e é chegada
a hora de Argemiro colocar pela primeira vez em prática
seu espírito de independência: muda-se sozinho
para Londres, onde cursa a Escola de Comércio. Segundo
Paulo, admirador incondicional do pai, entre gargalhadas
e lágrimas de emoção, este foi, na vida
de Argemiro, período de estudo pesado, mas também
de muito futebol, elegância jamais dispensada e grandes
farras. Apesar de novo, nosso herói desperta
especial interesse nos ingleses exportadores de café,
que viram nele segurança e competência para
intermediar negociações
do produto entre Brasil e Inglaterra. Pouco mais tarde, era
fundada a nossa Cia. Nacional de Comércio de Café;
seu fundador e diretor, adivinhem: Argemiro de Hungria da
Silva Machado.
Bem sucedido, charmoso e ... solitário?!
Não
por muito tempo: Argemiro apaixona-se por Clara Machado da
Silva, com quem se casa. Da união, três filhos:
Paulo, Guidinha e Dora.
A vida limitava-se então a trabalho e viagens ao exterior?!
Nem pensar! Os Hungria da Silva Machado costumavam passar
férias e finais de semana no Quebra Frasco, em Teresópolis.
Ei! Pára tudo! O que é que isto tem a ver com
Itaipava? Explico. Voltemos então um pouquinho na
História... A Fazenda Santo Antônio é,
para sorte nossa, parte de nosso Patrimônio Histórico
e Artístico
Cultural. Historiadores citam-na como concedida um dia a
Antônio da Silveira Golarte, em torno de 1760. Tudo
isto no tempo das sesmarias. Anos e anos se passaram entre
heranças, divisões, dívidas e lucros,
construções, abandonos, até passar às
mãos de Agostinho Correia da Silva Goulão.
Em 1878, o então comendador Francisco José Fialho,
comprou a Fazenda Santo Antônio, onde residiu anos
a fio. Deve-se a ele reformas e trabalhos de conservação
na fantástica sede de arquitetura genuinamente colonial.
Com sua morte, a fazenda ficou abandonada à própria
sorte, nada invejável. Mas, como o mundo dá voltas,
pelos idos de 1930, chegaria seu salvador, nosso protagonista,
Argemiro Hungria da Silva Machado que, comprando-a dos herdeiros
de Fialho, fez a Santo Antônio voltar a florescer.
Paulo, fabuloso arquiteto, braço direito de Lúcio
Costa na construção de Brasília, entre
mil outros projetos, dentre os quais o da Cia. Siderúrgica
Nacional nos conta que, a primeira vez em que esteve na Santo
Antônio o estado da sede era deplorável: para
se ter uma idéia, o canto direito da casa estava literalmente
afundado. Argemiro, determinado a salvar a preciosidade,
entregou a “missão de salvamento” a Augusto
Corrêa que, com a ajuda de sessenta homens, levantaram-na,
colocando a casa no nível certo. De palmo em palmo
a Santo Antônio ressurgiu das trevas, graças à incansável
força de vontade de Argemiro: a primeira cocheira
construída, foi dedicada a seu cavalo de estimação,
Tupi. Mas Paulo lembra, feliz da vida, que também
teve o seu Piquira: “sempre a cerca de cem metros atrás
dos demais nas cavalgadas, o coitado...”.
Com Argemiro, a Santo Antônio entra em fase de franca
produtividade com a criação de gado Simental
da melhor qualidade. Chegou a fornecer leite em grande escala
para Petrópolis e Teresópolis. Estábulo,
gerador, fábrica de gelo, pocilga, paiol, fábrica
de lingüiça e salgadeira para couros. Chegou
a ter um laticínio refrigerado! A fazenda foi dividida
então em dez retiros, sendo o R1 a sede, os R4 e R5
na Boa Esperança, sem falar nos que ficavam nos altos,
usados nas invernadas. As viagens da família Hungria
Machado ao exterior eram constantes, mas pelo brilho nos
olhos de nosso querido amigo Paulo, a volta à Santo
Antônio, era sempre uma inigualável alegria.
O Paraíso era ali! E devia ser mesmo! Como Argemiro
vivia obrigado às viagens para fora do país,
Paulo foi incumbido pelo pai a assumir a direção
da fazenda aos dezessete anos! E não decepcionou!
Chegou a criar uma técnica especial para fabricação
de mozzarela! Casos... lembranças... quanta história!
História mesmo! Ali, naquela sede, foi assinado o
contrato para a instalação da primeira fábrica
da Coca-Cola no Brasil! Muito inglês falado e muito
olho comprido de Paulo que, na época com doze anos,
achou fantásticas as pernas das meninas americanas,
segundo escreveu em um diário encontrado há poucos
anos por suas filhas.
Querem mais? A Santo Antônio ficou
conhecida como a “Fazenda
de Getúlio”. Era lá que o presidente
mais conhecido da História do Brasil se refugiava.
A amizade entre Argemiro e Getúlio começou
por conta de uma tentativa de desapropriação
na região da Boa Esperança para construção
de um loteamento. Argemiro, sempre espirituoso, mandou um
recado ao presidente dizendo que se a questão eram
buracos, que viesse jogar golfe com ele em sua fazenda. O
presidente não pensou duas vezes: não só aceitou
o convite, como passou a freqüentar o lugar todo fim
de semana! Chegou a passar quarenta dias seguidos naquelas
bandas! Até hoje, a sede conserva intactos os “aposentos
de Getúlio”.
É
, com certeza sobra história mas, infelizmente, nos
falta espaço... A trajetória da Fazenda Santo
Antônio e dos Hungria Machado daria um livro! Quem
sabe um dia? Até por que esta história está distante
de seu fim: ao contrário, recomeça a cada dia,
sempre renovada neste paraíso chamado Itaipava.
Patrícia Puretz
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