Um amigo de fé, irmão camarada
Depois
de muito tempo prostrada na frente do computador tentando
iniciar essa matéria, resolvi dar um passeio pelo
sítio. Estava ensimesmada porque a inspiração
não vinha e totalmente apatetada diante da luz fria
da tela. Precisava de um novo horizonte, pensei, levantei
e fui. Andando pelo meio das árvores e do mato que
não se cansa de crescer, parei para olhar uma muda
que eu tinha plantado há muito tempo, tanto que tinha
até caído no esquecimento.
eparei que ela
tinha evoluído muito pouco, me agachei e perguntei
para ela: Você precisa de mais sol companheira? Ela
respondeu que sim, juro. Diante da necessidade, peguei minhas
ferramentas de jardim e executei o transplante com a destreza
de um Christiaan Barnard, lembram dele? Tarefa cumprida,
mãos sujas de terra, fiquei observando o feito e matutando:
como essa plantinha é corajosa, ficou lá esquecida
naquela sombra mas não esmoreceu.
smorecer... eu
também tinha esquecido dessa palavra. Esmorecer; perder
o ânimo, a coragem, o entusiasmo. É isso, a
personagem da minha matéria em nenhum momento esmoreceu,
desanimou diante das dificuldades. É isso mesmo, a
minha plantinha é igual ao Monsenhor Brasil, que por
ser Monsenhor, tinha título de flor.
Luiz Brasil Cerqueira,
esse era o seu nome completo, chegou à Itaipava
em 1944 para realizar o trabalho pastoral da Capela, de pau a pique, de São
José de Itaipava. Uma capela recém construída para um padre
recém ordenado. Padre Luiz, logo que chegou, inspirou a simpatia de todos
os paroquianos como relata a reportagem publicada no Correio da Manhã,
infelizmente sem data, de Flávia da Silveira Lobo: É com simplicidade
que o padre Luiz se dirige aos seus paroquianos, modestos ou grã-finos.
E, entre os pobres da terra, a sua cotação é muito alta.
Pudera! Trata-os como iguais, companheiros de lutas e de risos. E conquistou-lhes
a confiança integralmente. Moisés, o sacristãozinho, é seu
amigo. Helena, a nossa lavadeira, também. E dona Maria, a mulher do caseiro.
E Manuel, e Pedro e Joaquim. Com certeza, padre Luiz é a figura mais popular
de Itaipava.
Só que Padre Luiz não chegou à Itaipava apenas para congregar
o seu rebanho na hora da missa para que escutassem os seus sermões, por
mais interessantes que eles fossem. Ele tinha um ideal maior: construir um Liceu,
com objetivos didáticos, sociais e culturais. E, como era torcedor doente
do Flamengo, também com objetivos esportivos, em especial, futebolísticos.
Mas para construir uma escola que pudes-se
abrigar tantas atividades quanto sonhava, padre Luiz tinha
que angariar
fundos e com isso acabou sendo chamado por muitos
de “pidão”. E era verdade, ele foi um grandicíssimo
pidão. Pedia ajuda, sem mais milongas, para todos os caixa alta que naquela época
freqüentavam Itaipava. E todos davam dinheiro para as obras porque acreditavam
nele, porque tinham a certeza que ele pedia para beneficiar os menos abastados,
não para se beneficiar. Foram tantos os nomes ilustres que o ajudaram
que achei melhor não relacioná-los, com receio de esquecer algum
e cometer uma injustiça.
Além dos donativos que recebia, Padre Luiz também organizava festas
com animados leilões. Dessa forma, mesmo aqueles que não tinham
o caixa tão alto podiam contribuir para a obra da escola doando doces,
bolos, porcos, galinhas ou o que mais pudessem doar. E foi assim que o Liceu
foi construído, com a participação de toda a comunidade.
O sonho de padre Luiz, afinal, não era mais só dele, era de todos.
Como não poderia deixar de ser, alguns levantaram suspeitas sobre o destino
de tantos donativos. Conta Flávia da Silveira Lobo, na mesma matéria
do Correio da Manhã: Padre Luiz trocou seu velho automóvel por
um Chevrolet e talvez alguns forasteiros julguem que ele é um boa vida.
Acontece, porém, que ele é responsável pelo terceiro distrito
de Petrópolis e parte do segundo e, às vezes, começa a rodar
antes das seis horas da manhã, para só voltar à tardinha.
E, se o automóvel é elegante, a casa é simplicíssima
e a batina recebe, valente, toneladas de poeira. O apostolado intenso carrega
o vigário para onde precisem dele, seja onde for.
Mas o fato, que dava um basta aos
falatórios, é que as obras caminhavam,
e em 1958 o Liceu foi inaugurado apenas com o andar térreo em funcionamento.
A salas eram amplas e claras contrastando com os móveis marrons e tristes
enviados pelo Ministério da Educação. Serão muito
caros os móveis alegres e de bom gosto?, ele se perguntava. De qualquer
forma, mesmo com móveis tristes, o primeiro grande passo estava dado.
A inauguração do Liceu São José de Itaipava contou
com as presenças do Exmo. Sr. Bispo Diocesano de Petrópolis, D.
Manoel Pedro da Cunha Cintra, do prefeito de Petrópolis, Dr. Nelson de
Sá Earp, e do Ministro da Educação Brígido Tinoco.
A essa altura, padre Luiz já havia galgado mais um degrau na carreira
eclesiástica e se tornara cônego. Itaipava também tinha avançado
junto com ele: agora tinha o seu próprio colégio com o segundo
grau.
Vale lembrar que nesses tempos eram
poucos os jovens de Itaipava, em especial as mulheres,
que tinham condições de ir até Petrópolis
para concluir seus estudos. Na verdade, as mulheres, nem vislumbravam essa possibilidade.
Para ir até Petrópolis o drama familiar era imenso e a viagem era
longa. Como uma menina vai acordar as cinco da manhã para pegar o ônibus
das seis? Ela vai ficar, na escuridão, sozinha, no ponto do ônibus?
Ela vai nesse ônibus, cheio, sozinha? Essa lembrança é fundamental
para que possamos entender melhor a importância dessa obra e do empenho
de padre Luiz em ver realizado o seu sonho. Com ideais iguais, para moças
e moçoilos.
Falando a verdade, como Padre Luiz
gostaria, os dados com determinação
histórica terminam aqui. Infelizmente, como todos nós sabemos,
os registros são escassos. Trabalhei com lembranças de pessoas
que conviveram com ele e que o amavam. De qualquer forma, minha pesquisa encontrou
uma determinante: a maior parte da população de Itaipava cursou
o Liceu. Mais. A maior parte da população de Itaipava tem ótimas
lembranças dessa experiência com padre Luiz. Severo, quando preciso,
amigo, sempre. Um grande companheiro, todos dizem. Os alunos eram o seu rebanho.
Rebanho que cresceu, estudou, se fortaleceu, e nunca se esqueceu dele. Como figura
humana, como orientador religioso, como educador. Também é determinante
o fato de que todos reclamam a falta de valorização dada à essa
figura, tão fundamental na formação de toda uma geração.
Padre Luiz esta enterrado no cemitério de Itaipava, sem lápide,
sem palavras amigas e de gratidão registradas no seu túmulo. Honestamente,
não sei a quem reclamar essa falta. À comunidade de Itaipava, à Diocese, à Prefeitura,
aos ex-alunos? Não sei. Só sei que gostaria de ter conhecido padre
Luiz, de ter debatido com ele sobre a vida, sobre educação e sobre
religião. Terminando essa matéria, sinto a falta de não
ter estado com ele; padre Luiz, Monsenhor Brasil, que por ser Monsenhor, tinha
título de flor.
Denise Tati
|