| Genevieve Vavin: pura vanguarda, quem
diria, em Pedro do Rio |
Genevieve
Marie Louise Vavin. Didi. Genoveva. Genô. Quatro pessoas?
Quatro em uma? Nada disto: mil em uma. Nascida em 19 de junho
de 1913 em França, Paris, Genevieve
cresceu na nobreza, no luxo, e com fácil acesso à cultura,
esta última
por ela jamais dispensada. Essencialmente sensível e talentosa, dedicou-se
especialmente ao estudo do piano, da pintura e das línguas estrangeiras.
Viveu por um longo período
de sua vida cercada por um poder que provou, ao longo de sua trajetória,
jamais a ter impressionado.
Durante a Segunda Grande Guerra, Genevieve
registrou à sua
maneira o seu protesto, chegando a abrigar refugiados no palacete onde
morava com sua família.
Mas não parou aí. Genô era cidadã do mundo:
em 1948 partiu de sua terra natal com um grupo de franceses para estabelecer-se
no Paraguai,
durante a Revolução. Pouco depois chegava ao Brasil, Rio
de Janeiro, também em plena Revolução. Após
alguns anos em nosso país conheceu um compatriota, o ceramista Gonot
e sua esposa, então
moradores de Itaipava, mais precisamente da localidade de Pedro do Rio.
Seu destino estava traçado: Genô elegeu esta a sua terra.
Sorte nossa!
Seu enorme talento não escapou aos olhos
atentos de Gonot, que tinha uma pequena cerâmica: a Cerâmica
Itaipava, localizada junto à então
estação de trem de Itaipava, bairro hoje chamado Fazenda
São
José. A chegada de Genevieve à Pedro do Rio deu novos
e frutíferos
rumos à Cerâmica Itaipava, tornando-a conhecidíssima:
visitantes de todos os cantos, brasileiros e estrangeiros vinham conhecer
e comprar peças únicas
e exclusivas ali produzidas.
Genô era uma pessoa ímpar.
Inesquecível. Marcou presença
na região e, mesmo quem não a conheceu pessoalmente,
tem algo a falar de bom da mulher moderna, generosa e cheia de vida.

Cultíssima
e de talento indiscutível, sobretudo em se tratando
de saber viver (a maior de todas as artes), Genô imprimiu sua
existência
, sua essência, seu pensamento macro em suas ações
e obras artísticas.
Até o fechamento da Cerâmica
Itaipava, pelo falecimento de Gonot, Genevieve jamais deixou o trabalho
em segundo plano. Mas esta não foi
sua única ocupação. Extremamente católica,
suas obras sempre reafirmavam sua fé. Seus quadros, a grande
maioria em relevo (argila sobre madeira), mostram cenas que, expostas
lado a lado podem compor histórias
de acordo com a imaginação de quem os admire.
É
claro que esta criatura única encontrou tempo para dedicar-se à Igreja
de São Pedro, onde tocava órgão nas missas (chegou inclusive
a compor alguns dos hinos ali cantados), ensinava catequese às crianças,
e trabalhava para a igreja no que necessário fosse.
Genô, inde-pendente do fechamento da Cerâmica, deu continuidade a
seu trabalho como pintora e ceramista, mudando-se para uma casa simples em um
bairro operário em Pedro do Rio. Ali, teve oportunidade de dedicar-se
ainda mais à comunidade local, levando sabedoria, conhecimento
e generosidade sem par.
Vanguardista na mais pura essência da palavra, Genevieve
acreditava que o futuro mora nos jovens e nas crianças.
Assim, não havia quem
não fosse bem vindo à sua casa. Enquanto normalmente
abrimos nossas janelas ao acordarmos, Genô abria também
suas portas, que assim permaneciam até que o último
conviva fosse embora.
Nesta casa, que mais parecia uma instalação
digna de Bienal pela permanente exposição das obras,
tanto nas paredes internas quanto externas, Genô ajudava
jovens e crianças da comunidade em seus deveres
de escola e tentava (às vezes sem sucesso) ensinar-lhes
inglês e
francês. Depois das obrigações cumpridas era
chegada a hora de colocar literalmente as mãos na massa.
Sua matéria-prima: a
argila. Genevieve juntava tijolos, ou restos deles, os “desconstruía”,
transformando-os em argila para moldá-la por suas próprias
mãos
ou pelas de seus pupilos; obras depois “cozidos” em
um pequeno forno que mantinha em sua casa. Quanto à comercialização
das obras dos alunos, muitas vezes acontecia de vendê-las
enquanto estavam na escola: dinheiro este inteira e imediatamente
repassado ao autor, já que a mestra
exigia que todos assinassem seus trabalhos. Alguns de seus iniciados
nas artes plásticas chegaram, mais tarde, a montar suas
próprias cerâmicas
na região.

Em 1991 Genô nos deixou. Seu testamento,
distribuía entre seus amigos
mais queridos seus livros (para ela de valor inestimável),
algumas de suas obras e objetos pessoais. Exigiu ser enterrada
em Pedro do Rio, onde em
sua igreja foi também celebrada sua missa de sétimo
dia. Deixou por escrito que, nesta ocasião, a frase “Amai-vos
uns aos outros, assim como eu vos amei” fosse lida por um
jovem. Seus pedidos foram todos, sem exceção, atendidos.
Genô era amada demais: não
poderia mesmo ter sido diferente.
Descrever ou reconhecer uma obra
de Genevieve Vavin é não tarefa
difícil: seu estilo sempre foi sua mais nítida assinatura.
Feliz daquele que tem uma obra sua. Mas, para quem não as
possui, uma visita à Igreja
de São Pedro, no centro de Pedro do Rio, pode transformar-se
em deleite aos olhos sensíveis daqueles que apreciam a boa
arte: toda a via-sacra foi feita pelas mãos desta mulher:
uma artista francesa que, mais brasileira, impossível.
Patrícia Puretz
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